Amanheceu. It’s supposed to be uma terça-feira qualquer. Após suas três sagradas sonecas, Amelina aceitou o sol e junto com ele o calor que invadiam seu quarto violentamente, quase que a pontapés. Espreguiçou-se, sentiu as pontas dos seus pés encostarem o fim da cama enquanto suas mãos empurravam a parede. Levantou. E tirando os 43º matinais, tudo parecia bem... Sensação essa que acabou no exato momento em que entrou em seu banheiro e deu de cara com a sua cara amassada no espelho. O espelho parecia denunciar a noite que passou, o sonho que atrapalhou seu sono, que a fez levantar para um copo d’agua e para que aquele sonho acabasse e evaporasse com o calor que fazia. Em vão. Ao deitar na cama e fechar os olhos novamente, era como se tivessem apertado o “pause”, a imagem continuava ali, congelada. O sono chegava, apertava o “play” e tudo aquilo recomeçava, as imagens, os sons, tudo perfeito, nítido. Podia jurar que até mesmo cheiro tinha aquele sonho.
E ao lembrar de tudo aquilo, Amelina sentiu raiva de si própria, tinha vontade de esmurrar o espelho que refletia a imagem de seu rosto tolo. Pensou que aquilo poderia ser doloroso e no trabalho que daria, espelho quebrado, mão detonada, sangue, hospital, pontos. Não, não parecia uma boa idéia. Sussurrou apenas alguns “auto-xingamentos” e entrou no chuveiro.
Não se perdoava. Depois de tantos meses... Ele finalmente parecia ter sumido dos seus pensamentos, dos seus planos, de suas fantasias. O problema é que ele nunca tinha deixado de habitar seus olhos e seus ouvidos.
- Só pode ter sido pela matéria da turnê do DM. Ou pelas imagens do show dos meninos no terraço da BBC que passavam no jornal da madrugada, pouco antes de adormecer. Foi o que constatou Amelina.
Depois de tanto tempo, ele voltava a ocupar o maior espaço da cama. Julgue-se pela posição em que acordara a menina, naquela manhã. Mais um pouco e Amelina cairia no chão. Ele sempre foi espaçoso, não bastassem seus 1m e milhares de centímetros.
A verdade é que Amelina teve que lidar com a sombra dele, logo ali, do seu lado, durante todo o dia. Brigava com sua presença, tentou, por diversas vezes, se esconder ou simplesmente ignorar aquele velho fantasma, a quem bem conhecia. Tudo em vão. Ele a fez companhia no carro, na volta do trabalho. No elevador. No banho. Na mesa da cozinha, enquanto jantava seu tão desejado e delicioso sanduíche de atum.
E depois de tanto fingir, ou pelo menos, tentar fingir que não se abalava com aquela companhia, depois de fugir dos braços que, por vezes, já foram seu maior refúgio e conforto, depois de tanto resistir à voz e ao charme que lhe faziam sentir borboletas no estômago, Amelina resolveu aceitar aquela visita. Decidiu que não negaria mais a presença do rapaz, abriria a guarda, oferecer-lhe-ia seu melhor sorriso, seu sentimento mais puro, suas palavras mais sinceras, seu coração em uma bandeja. E quem sabe aí, nesse exato momento, como das outras vezes, ele viraria as costas e a deixaria só, em seu mundo cor-de-rosa, de laços e fitas.
quarta-feira, 4 de março de 2009
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