Ela não quer mais cena de filme. Cansou dos diálogos incríveis que parecem ter saído do roteiro mais incrível. Cansou dos olhares que parecem ter sido ensaiados pelo diretor espanhol. A expressão no rosto dele, o jeito como ela arruma seu cabelo tentando se esconder daquelas palavras pontiagudas, tudo compondo a mais bela fotografia.
Ela não quer mais o drama mexicano, a emoção que navalha o estômago, o ar que falta aos pulmões. Cansou das declarações-bomba, das confissões de anos acumulados, das promessas de um futuro bonito e distante, dos elogios extremos.
Cansou de ser a atração no jantar com as amigas, a que sempre tem um episódio emocionante pra contar. Cansou dos olhares arregalados e rostos boquiabertos.
Ela que passou a vida sonhando com o bom e velho príncipe encantado, montado em seu esplendoroso cavalo branco, sonhando com um amor igualzinho ao da mocinha e do mocinho da novela das oito, se esqueceu de lembrar que aquilo era faz-de-conta. E agora descobre que as histórias mirabolantes as quais protagoniza hoje, essas sim, são episódios, capítulos, como os de novela. Intensos e curtos, com tempo certo para acabar.
Não. Príncipes encantados não existem. O Marrocos e a Índia não ficam aqui do lado. O mocinho que cortou os dois braços pelo amor da mocinha não existe aqui do lado de fora, no “mundo dos mortais”. Ele não vai romper com a família nem abrir mão da fortuna do pai por sua causa.
Ela, agora, só busca o trivial, nenhum amor intergaláctico. O feijão-com-arroz tem e sempre terá seu valor. Ela só quer o abraço reconfortante no fim do dia, uma boa companhia para seu cinema semanal e solitário, o beijo com gosto de sorvete no domingo à tarde, alguém com quem dividir suas idéias e pensamentos, dos mais corriqueiros aos mais absurdos, alguém para compartilhar suas mais recentes descobertas musicais e sua paixão avassaladora pelo músico de olhos azuis.
Ela quer a paz, em forma de pele e osso. E, se não for pedir muito, que venha acompanhada de um sorriso largo, um olhar sincero e do abraço mais apertado.
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Barbára, em sua homenagem um soneto, de Pedro Lyra:
Soneto de Constatação — XXVI
Nasce um homem.
Quando ele se percebe
joga contra o destino a sua vontade:
quer luzir
quer voar
quer sobrepor-se
para provar que a vida tem sentido.
Trabalha:
cada fruto desse esforço
lhe torna o mundo em forma de desfrute.
Combate:
cada etapa ultrapassada
acrescenta-lhe forças para a próxima.
Pesquisa:
cada jóia imaginada
lhe confirma o triunfo sobre o tempo.
Mas na hora mais densa opaca íntima
em que um espelho cego cobra o sendo
nem glória
nem riqueza
nem poder:
— só interessa mesmo o que lhe falta.
ploft, ploft, ploft #2
lágrimas
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