domingo, 7 de junho de 2009

era uma vez...

Ela não quer mais cena de filme. Cansou dos diálogos incríveis que parecem ter saído do roteiro mais incrível. Cansou dos olhares que parecem ter sido ensaiados pelo diretor espanhol. A expressão no rosto dele, o jeito como ela arruma seu cabelo tentando se esconder daquelas palavras pontiagudas, tudo compondo a mais bela fotografia.
Ela não quer mais o drama mexicano, a emoção que navalha o estômago, o ar que falta aos pulmões. Cansou das declarações-bomba, das confissões de anos acumulados, das promessas de um futuro bonito e distante, dos elogios extremos.
Cansou de ser a atração no jantar com as amigas, a que sempre tem um episódio emocionante pra contar. Cansou dos olhares arregalados e rostos boquiabertos.

Ela que passou a vida sonhando com o bom e velho príncipe encantado, montado em seu esplendoroso cavalo branco, sonhando com um amor igualzinho ao da mocinha e do mocinho da novela das oito, se esqueceu de lembrar que aquilo era faz-de-conta. E agora descobre que as histórias mirabolantes as quais protagoniza hoje, essas sim, são episódios, capítulos, como os de novela. Intensos e curtos, com tempo certo para acabar.

Não. Príncipes encantados não existem. O Marrocos e a Índia não ficam aqui do lado. O mocinho que cortou os dois braços pelo amor da mocinha não existe aqui do lado de fora, no “mundo dos mortais”. Ele não vai romper com a família nem abrir mão da fortuna do pai por sua causa.

Ela, agora, só busca o trivial, nenhum amor intergaláctico. O feijão-com-arroz tem e sempre terá seu valor. Ela só quer o abraço reconfortante no fim do dia, uma boa companhia para seu cinema semanal e solitário, o beijo com gosto de sorvete no domingo à tarde, alguém com quem dividir suas idéias e pensamentos, dos mais corriqueiros aos mais absurdos, alguém para compartilhar suas mais recentes descobertas musicais e sua paixão avassaladora pelo músico de olhos azuis.

Ela quer a paz, em forma de pele e osso. E, se não for pedir muito, que venha acompanhada de um sorriso largo, um olhar sincero e do abraço mais apertado.

2 comentários:

Unknown disse...

Barbára, em sua homenagem um soneto, de Pedro Lyra:

Soneto de Constatação — XXVI


Nasce um homem.
Quando ele se percebe
joga contra o destino a sua vontade:
quer luzir
quer voar
quer sobrepor-se
para provar que a vida tem sentido.

Trabalha:
cada fruto desse esforço
lhe torna o mundo em forma de desfrute.

Combate:
cada etapa ultrapassada
acrescenta-lhe forças para a próxima.

Pesquisa:
cada jóia imaginada
lhe confirma o triunfo sobre o tempo.

Mas na hora mais densa opaca íntima
em que um espelho cego cobra o sendo
nem glória
nem riqueza
nem poder:

— só interessa mesmo o que lhe falta.

Bela Malta disse...

ploft, ploft, ploft #2
lágrimas