Fechei os olhos por dois goles. De água, que agora não posso beber.
Não por hora.
Senti-me numa cidade que nunca fui.
E parecia conhecê-la profundamente. Eu era um local. Nativo.
Reykjavík.
Um telão instalado em uma praça pouco iluminada. Poucos circulavam.
Estava frio. Árvores recém-desenhadas por um artista que entendia de outono, a tinta ainda fresca.
Ao fundo, a paisagem marrom da parte antiga, com seus prédios-caixa de janelas brancas, sempre limpas.
Tudo na penumbra natural da hora em que adormeci acordado. Era madrugada.
Dois goles.
Cá estou eu.
Cá? Por que logo aqui, ali, lá, tão distante?
No telão, um clipe musical. Flaming Lips, talvez. Não sei ao certo.
Do you realize? Isso estava reverberando na minha cabeça.
Procurava placas.
Placas proibitivas.
Eu queria o não.
Mas não.
Tudo que meus olhos viram, cerrados em dois goles intermináveis do licor inodoro, eram a representação do sim.
Corra.
Fuja.
Pise.
Faça.
Estacione.
Beba.
Mergulhe.
Ouça.
Atravesse.
Peça.
Pule.
Fale.
Pesque.
Ofereça.
Ultrapasse.
Toque.
Grite.
Buzine.
Temos.
Aperte.
Abrace.
Olhe.
Suba.
Segure.
Solte.
Alugamos.
Deixe.
Dê.
Beije.
Sim. Sim. Sim. Sim. Sim.
As luzes da praça acendendo, o clipe, os poucos reflexos de sorrisos no dia amanhecendo tardiamente.
Ela me parecia uma cidade íntima.
Era isso.
É isso.
Será isso.
Sempre o será.
Quando finalmente nos descobrimos, olhos cerrados por dois goles, em Reykjavík, não há outra resposta possível.
Senão o sim.
{Babita, essa conversa não tem fim.}
Por Pedro Fonseca.
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