Nessas horas, eu sempre repito baixinho, sussurrando pra mim mesma: ok, ok! Tá tudo bem. É como se você fosse logo ali, pra Porto de Galinhas, querida. Fica tranqüila. E num movimento quase que automático, busquei meu case na bagunça do carro e pensei em quem convidaria pra me fazer companhia naquela viagem. Mr. Sinatra? Não, querido! Definitivamente, a vida não está fácil pra você vir com esse seu charme, sussurrando no meu ouvido propostas quase indecentes. Michael Bublé? Idem! Além da raiva que tá dando de saber que eu não vou conseguir ir ao seu show, que não vai ser dessa vez que a gente vai se encontrar, casar e ter filhos. Coldplay? Hummm... Carro, trânsito, semáforos, não acho um cenário legal pra se cortar os pulsos. Hoje, não, Chris. Maná? Não. Não é um bom dia para a nostalgia. U2? Meninos, vocês são sempre bem-vindos. Mas, devido a alguns acontecimentos recentes, prefiro continuar dando um tempo na nossa relação. Amy? Querida, seu marido acabou de sair da prisão. Vá curtir ele, vá. Camelo? Já basta o monopólio que você anda praticando no meu ipod, não?! Me colocando pra dormir dia-sim, dia-não, numa briga acirrada com o Yann Tiersen. Marisa Monte? É isso. Marisa. Companhia doce, leve, feliz.
Ela começou a cantar pra mim, com sua voz linda. Eu comecei a cantar com ela, tentando e querendo ter aquela voz, na próxima encarnação. Aí eu segui cantando, cantando, viajando e cantando. E comecei a pensar em qual seria meu post de hoje, sobre o quê ou quem escreveria. Sim, porque me deu uma vontade enorme de chegar em casa e escrever. Escrever qualquer coisa. E também foi me dando uma alegria inocente, uma alegria infantil, sem motivo ou razão aparente. O mundo desabava logo ali, diante dos meus olhos, as buzinas, faróis vermelhos, o pingo grosso da chuva, o stress das pessoas, e eu sorrindo. Alegre, tola. O sorriso de quem acabou de ganhar a primeira boneca. Eu não lembro da minha primeira boneca. Quero dizer, aquela de plástico, que vem dentro de uma caixa de papelão. Mas, naquele exato momento de alegria boba, eu lembrei da minha primeira boneca de verdade, minha boneca, propriamente dita.
Eu tinha 6 anos quando ganhei a minha primeira bonequinha e ela saiu de dentro da barriga da minha própria mãe. Não é incrível isso?!
-Pausa. Momento de pegar o celular e ligar para a boneca, pra falar qualquer coisa... qualquer assunto não-urgente, só pra ouvir a voz dela. Provocar aquele riso gostoso que só de ouvir massageia meu coração. E eu lembro que a risada veio bem no cruzamento da Maria Antônia com a Consolação. Falamos-nos durante cinco minutos. Pronto. Foi o suficiente pra um abraço bem apertado.
Eu já tinha o meu Berninha, meu companheirinho de quarto. E agora esperava ansiosa, num misto de felicidade, expectativa, e aquela pitada de ciúme a chegada de mais um(a) irmãozinho(a). Não, meus pais não quiseram saber o sexo de nenhuma das 3 crias (!!!) “O melhor é a surpresa, o suspense é muito gostoso, filha!” (Eu, definitivamente, queria saber de quem eu herdei a curiosidade e a ansiedade grau 248,87).
Lembro do fatídico dia, família reunida na maternidade, todos felizes e contentes à espera do(a) mais novo(a) bebê da família. Eu não parava quieta, andava de um lado pro outro, me sentia “a” anfitriã querendo receber todo mundo, fazer sala, falava descontroladamente, pelos cotovelos, tamanha a ansiedade. Mas tudo aquilo parecia não ser suficiente para que eu descontasse meu nervosismo disfarçado de excitação. Então, logo arrumei outra válvula de escape para todo aquele turbilhão de emoções: comi absolutamente t-u-d-o que via pela frente (confesso que, de vez em quando, ainda uso tal técnica nos dias atuais), o que me causou sérios problemas gastrintestinais mais tarde, ao chegar na casa da “minha voinha” para dormir, passei a noite no banheiro.
Mas enfim, nasceu. Uma menina. A mais linda do berçário. Era a minha boneca. Agora eu tinha uma boneca de carne e osso (mais carne do que osso), de cabelos amarelos e bochechas grandes. Os olhos de gata, ou seriam de onça? Hoje, minha boneca cresceu. Brincamos muito e continuamos a brincar até hoje. Porque além de irmã e boneca, ela se tornou uma amiga, com todos os efeitos, vantagens, prós e contras que uma amiga de verdade traz. Companheiras, é isso que somos. Em alguns momentos, não sei se a diferença de seis anos é de mim pra ela, ou dela pra mim. De vez em quando, temos a mesma idade. Podemos ter 13 anos quando cantamos juntas, em voz alta e muita emoção, todos os sucessos de Sandy & Junior. Ou podemos ter nossos 32... Quando combinamos pra onde levaremos nossos filhos nas próximas férias.
Cuidei e cuido dela, ela já cuidou e cuida de mim, rimos, cantamos, choramos, dançamos, brigamos, pulamos, fizemos e fazemos – até hoje – tudo. Sempre juntas. Porque não há distância, qualquer que seja sua natureza, que nos separe ou afaste. Não importa se há pouco tempo atrás, essa distância acabava numa porta corrediça ou se existe uma distância de três mil quilômetros entre nós. O que importa mesmo é que a levo sempre comigo, tenho muito dela e sei que ela carrega parte de mim. Ela é, hoje, uma mulher. Mas passe o tempo que passar, ela será sempre a minha boneca.


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5 comentários:
Vc emociona, amiga...
Fiquei aqui, com o Bono mesmo, lendo Pedrinho e lendo "tu"... Interrompendo minha edição das fotos da viagem... E acabei de lembrar que essa viagem foi idéia sua... Saudade de vc, viu... Bjo. MC. Ps. Sou sua "primeira seguidora", segundo esse troço aqui! Ui! haha
babiii, "meu"..eu nao quero apelar pra sentimentalismos mas o jeito que tu escreve me obriga,gata!tu faz parecer que a gente tá do teu lado.É engracado,um "engracado" mt bom pq eu nao sei nem metade das historias mas tu as conta de uma forma que eu chego até a duvidar que nao as presenciei.Como eu ja disse, tu passa por texto toda aquela alegria que a gente sente qndo ta pertinho de voce.Gostei muito da tua ideia do blog! Continue escrevendo , viu! beijoca, gata!
Nossa. Que lindo. Que linda. Que lindas. P.
Que sacanagem do c... choro, choro...
E ontem que eu levei a sua boneca pra fazer o primeiro vestibular?!
Me senti uma mãe levando a filha, tu pode? Emocionante...
Ela é linda, vc tb.. MINHAS BONECAS!!!
Que lindo!
A pessoa aqui está grávida, mais sensível, não tem como nao chorar.
Amo essas duas, cada uma com o seu jeitinho...
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